Nem o Pentágono enxerga o povo como inimigo, só Bolsonaro

Trump e Bolsonaro compartilham da mesma visão autoritária, desprezando a democracia e desrespeitando a oposição. Mas, nos EUA, os militares rechaçam uso de tropas nas ruas para conter protestos. A hipótese é promessa que agrada o presidente e o vice, General Mourão O uso das Forças Armadas para conter multidões e protestos, uma hipótese levantada por Donald Trump, nos Estados […]

4 jun 2020, 18:31 Tempo de leitura: 9 minutos, 7 segundos
Nem o Pentágono enxerga o povo como inimigo, só Bolsonaro

Trump e Bolsonaro compartilham da mesma visão autoritária, desprezando a democracia e desrespeitando a oposição. Mas, nos EUA, os militares rechaçam uso de tropas nas ruas para conter protestos. A hipótese é promessa que agrada o presidente e o vice, General Mourão

Fonte: Reprodução

O uso das Forças Armadas para conter multidões e protestos, uma hipótese levantada por Donald Trump, nos Estados Unidos, e copiada por Jair Bolsonaro, aqui no Brasil, mostra o desprezo que ambos têm pela democracia, os adversários políticos e quem não comunga com a pauta do atraso político que compartilham. Os dois mandatários têm dificuldades de conviver com a crítica e a divergência política. Daí a disposição de recorrer ao uso dos militares para reprimir manifestações. O que Trump não contava era com a reação de generais americanos que rechaçaram de pronto a ideia de serem usados contra o povo.

Nesta quarta-feira (4), Trump levou a pior. O secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, disse que não apóia a Lei da Insurreição para enviar forças de serviço ativo para conter a agitação civil nas ruas das cidades americanas. Desde a semana passada, por dez noites consecutivas, o povo americano tem tomado as ruas em protesto pela morte do afro-americano George Floyd, assassinado após ser detido de maneira violenta pelo policial Derek Chauvin, que o sufocou até a morte. Chauvin foi indiciado por homicídio doloso e outros três policiais também responderão pelo crime. Nas ruas, o povo americano clama por mudanças.

“A opção por usar forças militares ativas para aplicar a lei deve ser usada apenas como uma última alternativa, e apenas nas piores e mais urgentes situações. Nós não estamos agora neste cenário. Eu não apoio o uso da Lei da Insurreição”, disse Esper, no Pentágono. “Sempre acreditei e continuo acreditando que a Guarda Nacional é mais adequada para prestar apoio interno às autoridades civis nestas situações”.

A onda de insurreição nas principais cidades americanas contra o racismo e o estado geral das coisas nos EUA levou Trump a declarar como “terrorista” o grupo Antifa – um aglomerado de grupos da esquerda local que remete às brigadas antifascistas nascidas nos anos 20 e 30 do século passado, historicamente ligados à luta contra o nazismo na Alemanha e seus simpatizantes nos Estados Unidos.

Na terça-feira, 2, o presidente dos EUA anunciou que pretende usar a força para debelar os protestos e anunciou o envio de tropas da Guarda Nacional mesmo enfrentando a resistência de governadores, a quem chamou de “babacas” por tolerarem marchas que ignoram o toque de recolher em meio à maior pandemia da história dos últimos 70 anos. Os Estados Unidos, assim como o Brasil, estão divididos pela liderança política de seus presidentes que apostam no antagonismo para manterem a base de eleitores agitada.

Na quarta-feira (3), foi Bolsonaro quem anunciou a mesma medida, copiando o colega americano e também classificando de “terroristas” os manifestantes que tomaram as ruas desde o último domingo para protestar contra o governo. Bolsonaro avisou que vai usar a força para reprimir protestos. Ninguém, a não ser parlamentares de oposição e parte da imprensa, rechaçou a posição de Bolsonaro, inclusive dentro das Forças Armadas.

Inimigo interno

Nos Estados Unidos, não só Mark Esper se posicionou contra a medida – considerada extrema e desnecessária no momento em que a América parece fraturada pelo episódio de racismo – uma doença social herdeira direta da escravidão – mas seu antecessor também. Ainda na quarta, o veterano General Jim Mattis, ex-secretário de Defesa do próprio Trump, entre 2017 e 2019, foi mais longe. Disse que o presidente não esconde a aposta num inimigo interno contra opositores. O velho militar teme uma guerra civil.

Mattis fez duras críticas ao presidente, chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos: “Donald Trump é o primeiro presidente da minha vida que não tenta unir o povo americano – nem mesmo finge tentar. Em vez disso, ele tenta nos dividir”, escreveu. As palavras de Mattis, um general aposentado que serviu no corpo de fuzileiros navais dos EUA desde 1969, são duras e mostram uma sinceridade óbvia e ainda assim desconcertante para os colegas de armas brasileiros: “Nossos concidadãos não são nossos inimigos”.

Não há precedentes para esse tipo de dissenso no governo americano. É como se o ministro da Defesa do Brasil, General Fernando Azevedo, se recusasse a mandar tropas para conter manifestações – como deseja Bolsonaro e o vice, General Hamilton Mourão.

Os EUA têm tradição de procurar inimigos externos, não dentro de casa. Ao contrário do Brasil, que desde o século passado, usa a paranoia do anticomunismo para manter a acessa e em vigor a tese do inimigo interno a ser combatido. E quem são os “inimigos internos”: comunistas, esquerdistas, intelectuais, gays, lésbicas e ativistas de minorias.

No passado, era o General Sylvio Frota, um “linha dura” dentro do Exército e que fazia oposição aberta ao General-presidente Ernesto Geisel, o mais fervoroso adepto da tese do “inimigo interno”. Essa doutrina de segurança nacional domina ainda hoje as academias militares. O general foi demitido em 1977 por Geisel porque tinha o desejo de endurecer o regime militar.

Fonte: Arquivo JB

Os colaborares mais próximos de Frota, naquele período, foram o General Newton Cruz, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) no governo Figueiredo – cujo filho trabalhou como chefe de gabinete de Bolsonaro quando este se elegeu vereador em 1988 no Rio de Janeiro. Cruz foi comandante do Planalto e, em 1984, jogou as tropas do Exército nas ruas da capital para reprimir manifestações populares em favor da campanha das ‘Diretas, Já’.

Outro colaborador direto de Frota  foi seu ajudante-de-ordens, o hoje General Augusto Heleno, que comanda o Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro. Heleno protagonizou um episódio vergonhoso no Haiti, quando comandava as tropas da ONU naquele país. Na madrugada de 6 de julho de 2005, tropas da missão comandadas por Heleno, fizeram uma operação de “pacificação” na maior favela Porto Príncipe, capital do Haiti, conhecida como Cité Soleil.

Segundo testemunhas, 300 homens fortemente armados invadiram o bairro e assassinaram 63 pessoas, deixando outras 30 feridas. Heleno foi removido do posto logo depois porque a ação foi questionada na Comissão de Direitos Humanos da própria ONU. O presidente da República era Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio rendeu a o ódio do militar ao PT e aos governos de Lula e Dilma. Heleno nunca mais foi o mesmo. E comunga com outros colegas de farda o incômodo com manifestações e protestos.

Na última quarta-feira, o General Hamilton Mourão, vice-presidente de Bolsonaro, escreveu o artigo “Opinião e princípios”, publicado no jornal ‘O Estado de S.Paulo’, em que ameaça reprimir manifestantes, tratados no texto pelo vice como delinquentes. “Baderneiros são caso de polícia, não de política”, escreveu. Nenhuma palavra sobre os ataques violentos de bolsonaristas à imprensa e jornalistas. Ou das manifestações de ataques a outras instituições democráticas, como o Congresso e o STF, que os apoiadores do presidente sonham calar, fechando as portas em nome da nova política e para não incomodarem mais o presidente.

Luta contra a segregação

Na América, colocar o povo ou dissidentes e opositores do governo como inimigos a serem derrubados pela força, é uma hipótese que causa profundo desconforto na sociedade. A possibilidade de usar a força contra manifestações remete aos ataques a ativistas dos direitos civis nos anos 50 e 60 nos Estados Unidos, cujas manchas de sangue marcaram profundamente a história dos Estados Unidos. O principal líder desse movimento foi o reverendo Martin Luther King, assassinado em 1968, na luta contra a segregação, o racismo e pelos direitos dos negros. Foi a Martin Luther King a quem Barack Obama recorreu ao tomar posse como 44º presidente dos EUA, em 2008.

O discurso da vitória de Obama, um afrodescendente filho de um casal multiracial – o pai era negro, nascido no Quênia, e a mãe uma branca de ascendência inglesa – o primeiro afroamericano a chegar à Casa Branca, em 5 de novembro de 2008, foi histórico porque tratava da unidade num país dividido. Ele citou Abraham Lincoln para lembrar: “Não somos inimigos, mas amigos. Embora as paixões os tenham colocado sob tensão, não devem romper nossos laços de afeto”, disse.

A posse de Obama remeteu ao famoso e histórico discurso de King, assassinado 40 anos antes, em que sonhava com outra América, partida em dois pelo racismo, uma chaga não cicatrizada e que causa dor insuportável entre os cidadãos estadunidenses tantos anos depois. Nesta quarta, Obama foi para as redes sociais e juntou-se à voz da juventude que ganhou as ruas das principais cidades dos Estados Unidos, desesperada pelo desemprego, pelo racismo e que clama por mudanças na América.

Esse sonho de mudar os Estados Unidos custou a vida de muitos homens que marcaram a História da América. Em 1968, King foi abatido a tiros. Precisamente, em 4 de abril, momentos antes da marcha em Memphis, mais uma na luta pelos direitos civis. Meses depois, outro homem a anunciar mudanças na América seria abatido. Era o candidato democrata à Presidência dos EUA Robert Kennedy, irmão do presidente John Kennedy, também ele assassinado em 1963.

As palavras do reverendo King, em 23 de agosto de 1963, ainda ressoam impactantes, mesmo tantos anos depois, na América dividida mas cuja cisão parece ter sido aprofundada pela era Trump: “Temos de enfrentar dificuldades, mas isso não me importa, pois eu estive no alto da montanha. Isso não importa. Eu gostaria de viver bastante, como todo o mundo, mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus, e ele me deixou subir a montanha. Eu olhei de cima e vi a terra prometida. Talvez eu não chegue lá, mas quero que saibam hoje que nós, como povo, teremos uma terra prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com meus olhos a glória da chegada do Senhor”.

Da Redação

Matéria originalmente publicada no site: Partido dos Trabalhadores
https://cutt.ly/Ry1lgwl e replicada neste canal.