Arauto da morte, Bolsonaro joga com a vida dos brasileiros no Nordeste

No momento mais agudo da pandemia, presidente Jair Bolsonaro provoca aglomerações e retira máscara, desrespeitando orientações de autoridades de saúde durante viagem ao Piauí e à Bahia. Com recorde de mais de 69 mil novos casos diários de Covid-19, Brasil registra 90.383 mortes e 2.566.765 infecções da doença.”Quando vamos sair do torpor e nos darmos […]

30 jul 2020, 20:00 Tempo de leitura: 6 minutos, 35 segundos
Arauto da morte, Bolsonaro joga com a vida dos brasileiros no Nordeste

No momento mais agudo da pandemia, presidente Jair Bolsonaro provoca aglomerações e retira máscara, desrespeitando orientações de autoridades de saúde durante viagem ao Piauí e à Bahia. Com recorde de mais de 69 mil novos casos diários de Covid-19, Brasil registra 90.383 mortes e 2.566.765 infecções da doença.”Quando vamos sair do torpor e nos darmos conta da verdadeira dimensão do que acontece no Brasil neste momento?”, indaga o coordenador do Comitê Científico Consórcio do Nordeste, Miguel Nicolelis. Em uma semana, prevê ele, o país deverá chegar a 100 mil mortos, o dobro das vidas perdidas na Guerra do Paraguai, que durou 6 anos

A banalização da tragédia causada pela crise sanitária do coronavírus tornou natural aceitar que o Brasil tenha uma média de mil mortos todos os dias há pelo menos seis semanas. Num teatro de horror de roteiro absurdo, o país encontra-se paralisado no limbo de uma guerra surda, travada entre o desejo do retorno a uma normalidade que não existe mais e a simples proteção da vida humana.

Enquanto a pandemia avança e mortes se acumulam – nesta quinta-feira (30), foram registradas 90.383 mortes e 2.566.765 casos de Covid-19, dos quais 69 mil em 24 horas, segundo o consórcio de veículos de imprensa – o maior responsável pela catástrofe brasileira, Jair Bolsonaro, voltou a jogar perigosamente com a vida dos brasileiros. Em visita à região Nordeste, o presidente provocou aglomerações e retirou a máscara, enquanto cumprimentava apoiadores.

Bolsonaro esteve no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, e Campo Alegre de Lourdes, na Bahia, para inaugurar um sistema de abastecimento de água. No aeroporto de São Raimundo Nonato (PI), ele chegou a montar em um cavalo e apertou a mão de seus apoiadores. A promoção de mais um ato de irresponsabilidade e negligência com a saúde pública do país coincidiu com o anúncio de que sua esposa, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, testou positivo para a Covid-19, segundo informações da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência. Outro ministro, Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, também anunciou que está contaminado pela doença. Pontes é o quinto ministro a contrair a Covid-19.

“Em menos de uma semana chegaremos a marca de 100 mil mortos em cinco meses!”, exclamou o neurocientista e coordenador do Comitê Científico Consórcio do Nordeste, Miguel Nicolelis, pelas redes sociais. “Quando vamos sair do torpor e nos darmos conta da verdadeira dimensão do que acontece no Brasil neste momento?”, indagou Nicolelis.

O líder do PT no Senado, Rogério Carvalho, também demonstrou preocupação com a gravidade da situação brasileira. “São mais de 90 mil vidas perdidas e 2,5 milhões de infectados. Não são mortes naturais, são mortes provocadas pela irresponsabilidade de um presidente que jurou proteger o país, mas negou a gravidade do vírus e boicotou o combate à pandemia”, atacou Carvalho.

Manaus 13 05 2020-Sepultamentos de pessoas de baixa renda, no cemitério N.S. Aparecida em Manaus (Foto: Fernando Crispim/Amazônia Real)

Perspectiva

A tragédia nacional deve ser colocada em perspectiva para que se entenda a dimensão de catástrofe histórica pela qual passa o país. Em apenas cinco meses, a pandemia da Covid-19 já ceifou a vida de quase o dobro dos mortos na Guerra do Paraguai, que durou seis anos. Entre 1864 e 1870, cerca de 50 mil brasileiros perderam a vida no conflito.

Em 2007, um acidente aéreo com uma aeronave da TAM causou comoção no país. Na ocasião, cerca de 200 pessoas morreram em Congonhas. A média de mortes diárias há seis semanas é cinco vezes esse número. É como se todos os dias, entre três e a cinco aviões caíssem no país por meses a fio. A pandemia também já matou mais do que o dobro do número de vítimas de acidentes de trânsito no ano de 2018, 40,7 mil pessoas.

No mesmo ano, a violência abreviou a vida de 55,9 mil brasileiros, saldo que a pandemia levou apenas quatro meses para deixar para trás. A Guerra do Vietnã acabou com o sonho de 58,2 mil americanos. Se a pandemia mantiver o avanço descontrolado, o Brasil pode atingir o dobro dessa marca entre o fim de setembro e outubro. Por fim, o número atual de vítimas brasileiras da Covid-19 equivale aos mortos pela bomba de Hiroshima, lançada em 1945. Naquele ano, 90 mil japoneses foram aniquilados.

Testes encalhados, sabotagem em curso

O quadro só não é mais grave porque não se sabe a dimensão real dos infectados no Brasil. Cinco meses  depois da chegada da pandemia, o país sofre pelas subnotificações de casos da doença por falta de testagens. O temor de especialistas é de que há  mais de 10 milhões de infectados circulando. A suspeita, que parecia apenas corroborar a completa incapacidade do especialista em logística que atualmente ocupa o Ministério da Saúde interinamente, o general Eduardo Pazuello, parece no entanto, apenas a ponta do iceberg.

Em mais uma demonstração de que o governo sabota deliberadamente as medidas de enfrentamento da pandemia, o ‘Estado de S.Paulo’ revelou que quase 10 milhões de testes estão parados no Ministério da Saúde. Segundo a reportagem do jornal, faltam insumos, reagentes indispensáveis à aplicação dos testes.

Questionada, a pasta informou que está normalizando a distribuição conforme recebe importações de insumos de fornecedores internacionais. Os kits parados representam o dobro do que já foi enviado a estados e municípios, cerca de 5 milhões de unidades.

De acordo com o diário, o governo comprou os lotes de exames sem ter a garantia ter que poderia adquirir também os insumos. Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), os insumos não são enviados com ‘regularidade” pelo ministério.

Atrocidades

“No primeiro momento não tínhamos testes porque estavam escassos”, relatou Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao ‘Estadão’. “Aí começou a faltar tubo, material de extração, depois de magnificação”. Ainda segundo Vecina, está faltando também “competência, falta só disposição do Estado para distribuir, coletar e processar”.

“É grave a revelação de que o governo do genocida está com 10 milhões de testes da covid-19 parados, enquanto faltam exames para a população em estados e municípios”, critica a deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hofmann (PR). “Bolsonaro precisa pagar por todas as atrocidades cometidas no enfrentamento dessa pandemia”, afirma Hoffmann.

Pior fase

Fiel à estratégia de sabotagem e à guerra contra a ciência, Bolsonaro segue em campanha pela reabertura das atividades. A julgar pelo comportamento da população, que vem lotando bares e praias do país – o tão sonhado pico da pandemia encontra-se ainda muito distante.

“O Brasil está passando pela pior fase da pandemia”, afirmou Alexandre Naime, chefe do departamento de doenças infecciosas da Universidade Estadual de São Paulo, em entrevista à agência ‘Reuters’.  “Paradoxalmente, as políticas públicas e o comportamento pessoal estão indo na direção oposta, como se não estivéssemos vivendo uma tragédia diária”, espantou-se o cientista.

Da Redação, com informações de ‘Estado de S. Paulo’ e ‘Reuters’

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Matéria publicada originalmente no site Partido dos Trabalhadores e replicada neste canal.