Produção industrial cai pela terceira vez consecutiva

Queda de agosto, maior que o dobro do que era esperado pelo mercado, é puxada por desemprego, queda de renda e inflação. O mau desempenho econômico do Brasil com Jair Bolsonaro e seu ministro-banqueiro Paulo Guedes continua surpreendendo até o mercado. A Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgada na terça-feira (5) pelo IBGE, por exemplo, revela […]

6 out 2021, 17:33 Tempo de leitura: 7 minutos, 29 segundos
Produção industrial cai pela terceira vez consecutiva

Queda de agosto, maior que o dobro do que era esperado pelo mercado, é puxada por desemprego, queda de renda e inflação.

O mau desempenho econômico do Brasil com Jair Bolsonaro e seu ministro-banqueiro Paulo Guedes continua surpreendendo até o mercado. A Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgada na terça-feira (5) pelo IBGE, por exemplo, revela que a produção industrial caiu pelo terceiro mês consecutivo na passagem de julho para agosto. A queda, de 0,7%, foi de mais que o dobro da redução estimada pelos analistas (0,3%).

Conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a perda acumulada nesses três meses de queda chega a 2,3%. Ela se disseminou por três das quatro grandes categorias econômicas e pela maioria (15) dos 26 ramos investigados. O trimestre encerrado em agosto fechou com queda de 1,2%.

A produção industrial também recuou 0,7% na comparação com agosto do ano passado. O setor ainda acumula ganho no ano (9,2%) e nos últimos 12 meses (7,2%), mas a base de comparação é negativa, explicou o gerente da pesquisa, André Macedo, à agência de notícias do IBGE.

Mesmo entre as atividades que apresentaram crescimento na produção – bebidas (7,6%), produtos alimentícios (2,1%) e indústrias extrativas (1,3%) – a base de comparação deprimida se destaca. “Essas três atividades tiveram um comportamento predominantemente negativo nos meses anteriores. O resultado positivo no mês de agosto é mais um grau de recomposição dessas perdas anteriores do que uma trajetória positiva que esses segmentos industriais venham a ter”, aponta o economista.

Ao mesmo tempo, produtos químicos (-6,4%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-2,6%), veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,1%) e produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-9,3%) puxaram a queda da produção.

“O setor de outros produtos químicos já vinha com queda nos dois meses anteriores, ligada a paralisações em unidades produtivas. Já no setor de derivados de petróleo, houve crescimento nos três meses anteriores, muito relacionado à flexibilização das restrições sanitárias, que permitiu que as pessoas tivessem maior mobilidade”, enumera Macedo. “Então a queda dessa atividade em agosto representa mais uma acomodação, algo pontual, do que uma reversão de tendência do comportamento positivo.”

Gargalos na oferta e na demanda

Com o resultado de agosto, a indústria ainda permanece 2,9% abaixo do patamar de fevereiro do ano passado (cenário pré-pandemia). Também se encontra 19,1% abaixo do nível recorde, registrado em maio de 2011, sob o Governo Dilma Rousseff. Os motivos extrapolam a paralisação imposta pela pandemia do coronavírus.

“Há um desarranjo da cadeia produtiva, que faz com que haja encarecimento dos custos de produção e desabastecimento de matérias-primas para produção do bem final. Isso vem trazendo, pelo lado da oferta, maior dificuldade para o avanço do setor”, comentou Macedo. Pelo lado da demanda, ele aponta o alto desemprego e a precarização do trabalho, além da queda de renda e da inflação galopante, como principais dificuldades.

“Há um contingente importante de trabalhadores fora do mercado de trabalho e os postos que são gerados têm salários menores, ou seja, há uma precarização das condições de emprego”, afirmou o pesquisador.

“Também há retração da massa de rendimento e uma renda disponível menor para as famílias, por conta da inflação mais alta. Esses fatores afetam as condições de compra por parte das famílias”, concluiu o economista.

É o que o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) chamou de “efeito Bolso/Guedes” em postagem em seu perfil no Twitter nesta terça.

Caem também faturamento e horas trabalhadas no setor

Nesta segunda-feira (4), a pesquisa Indicadores Industriais divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que o faturamento da indústria de transformação e as horas trabalhadas na produção mantiveram trajetória de queda em agosto. O faturamento real caiu 3,4% em agosto na comparação com julho, na série livre de efeitos sazonais. Já em relação ao mesmo mês do ano passado, o indicador recuou 0,2%.

No ano, de janeiro a agosto, o faturamento real da indústria de transformação acumula queda de 6,4% na série dessazonalizada. O indicador de horas trabalhadas na produção registrou retração de 0,3% em agosto na comparação com julho.

Segundo os dados da pesquisa da CNI, desde fevereiro de 2021, as horas trabalhadas têm apresentado quedas consecutivas mensais, com exceção de julho, em que houve estabilidade. A queda acumulada em 2021, de janeiro a agosto, é de 4,7%.

“Apesar da forte recuperação das horas trabalhadas no segundo semestre de 2020, em nenhum momento a massa salarial real voltou ao nível de antes da pandemia”, diz a pesquisa. “A alta da inflação contribui para a redução do rendimento médio real dos trabalhadores.”

“Essa queda tem refletido umas quebras de cadeia produtiva com falta de insumos para diversos setores da indústria de transformação”, diz a economista da CNI Maria Carolina Marques. Um exemplo disso, segundo ela, é o que tem ocorrido na indústria automotiva.

“O que tem acontecido muito, por exemplo, é a falta de microchips para a indústria automotiva, que tem paralisado montadoras de veículos. Só que isso não afeta apenas o setor automotivo”, ressaltou.

“Quando uma fábrica de automóveis para, ela para de adquirir aço, para de adquirir plástico, tecidos para fazer os bancos dos veículos e isso acaba tendo um efeito ao longo da cadeia produtiva e espraiando esse efeito para diversos setores da indústria de transformação”, finalizou a economista da CNI.

Em plena crise dos chips, governo desmonta fabricante

A crise dos microchips vem afetando as montadoras de veículos desde o início da pandemia. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) estima que a situação permanecerá crítica até meados de 2022.

A maioria dos fabricantes de componentes utiliza chips de uma única fonte: a indústria taiwanesa TSMC. A empresa cobre 70% da produção mundial de chips automotivos, mas eles representam só 3% de seu faturamento.

A dependência da indústria asiática de semicondutores da Ásia representa um problema geopolítico e estratégico. Os Estados Unidos planejam destinar US$ 50 bilhões para recuperar a indústria local, e a Alemanha elaborou um plano de financiamento público de € 522 milhões para pesquisa e desenvolvimento.

Já no Brasil, o desgoverno Bolsonaro fechou em junho a única fábrica de semicondutores do Hemisfério Sul – o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec). Criado por Luiz Inácio Lula da Silva em 2010, o Ceitec já registrou mais de 44 patentes de diversos tipos de semicondutores, inclusive o chip do passaporte brasileiro.

Neste momento crítico, a empresa poderia estar produzindo os semicondutores que faltam nas linhas de montagem em diversos ramos da indústria de transformação. Mas em vez de seu ministro-banqueiro da Economia, Paulo Guedes, organizar uma política industrial que conduza as demandas do setor, Bolsonaro preferiu liquidar o Ceitec.

A extinção da empresa foi decretada em dezembro do ano passado. No mesmo mês, o deputado Patrus Ananias (PT-MG), secretário-geral da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, protocolou projeto de decreto legislativo (PDL 557) para suspender o decreto. No momento, o oficial da reserva da Marinha Abílio Eustáquio de Andrade Neto comanda a diluição do Ceitec.

Nesta terça, a empresa esteve no centro do debate sobre a crise brasileira dos semicondutores promovido pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados. O assunto não estava previsto na pauta da audiência pública, mas foi inserido nas discussões a pedido de diversos parlamentares.

Presente na audiência pública, o presidente da Associação dos Colaboradores do Ceitec, Silvio Santos Junior, pediu aos deputados que anulem o decreto de Bolsonaro. “Entendemos que é completamente inaceitável a liquidação da empresa. Podemos contribuir pois temos profissionais altamente capacitados e infraestrutura no parque tecnológico do Ceitec”, defendeu.

No início de setembro, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o Ministério da Economia suspenda a liquidação do Ceitec e forneça mais informações sobre o que levou o governo a inclui-lo no Programa Nacional de Desestatização (PND). A decisão, por 3 votos a 4, acompanhou o voto do revisor do processo, o ministro Vital do Rêgo.

Para o tribunal, o governo não conseguiu justificar a venda do Ceitec. Os ministros consideram que o processo não considera o prejuízo que pode ser gerado pela liquidação. Em 60 dias, o Ministério da Economia deve fornecer mais informações que demonstrem o bem do interesse público para desestatizar a empresa.

Da Redação